Moisés NAÍM – Globalization
A globalização é, para os pessimistas, a causa do colapso financeiro, da desigualdade, do comércio não-justo e da insegurança. Para os otimistas, é a solução de todos esses problemas. Certos ou errados, o inegável é que a globalização chegou pra ficar.
Neste artigo, Naím traz uma abordagem inovadora, ao comentar pontos que são tidos como senso-comum em questões que tratam da globalização. A idéia é desmistificar certos conceitos e trazer novos pontos de vista a serem construídos sobre a globalização. São 7 principais:
“A globalização é uma casualidade da crise econômica”: Não. Não é, porque globalização não se trata apenas de economia e investimentos, pelo contrário, vai muito além disso. A globalização representa uma ampliação, aprofundamento e aceleração da conectividade global em todos os aspectos da vida. A crise econômica não foi e não será suficiente para impedir que os países continuem no processo de integração. Mesmo com algumas medidas de proteção, muito dificilmente os países conseguirão evitar as influências externas. Não há nenhum indicativo de que esta tendência mude.
“Globalização não é nada de novo”. Ah, é! Alguns argumentam que a globalização é um processo de continuidade que remonta desde os tempos em que os continentes se encontraram pela primeira vez. Mas ainda sim, o ponto é que esta nova globalização não tem nenhum precedente: nunca foi tão veloz, tão individualizada, provocando mudanças significativas quase que instantaneamente e a baixo custo. As possibilidades, e principalmente, as conseqüências são fatos nunca antes vistos pela humanidade.
“Globalização não significa mais americanização”: E nunca significou! A globalização abriu espaço não apenas para os EUA, mas levou sushi e telenovelas para todos os continentes, gerando inclusive a possibilidade improvável do surgimento de rivais contra a hegemonia americana em vários setores. Não se pode dizer que a globalização é um modelo de exportação do modelo norte-americano (american way of life). É claro que os EUA se beneficiaram muito com este processo, mas certamente não foram os únicos.
“Políticas de grandes potências estão de volta”: e nunca foram embora. Acreditava-se que a integração dos países seria benéfica contra as guerras e de fato foi. Até que vieram os ataques de 11 de setembro: a figura do Estado mínimo saiu de moda e era hora de mostrar a força de Estado. Laissez-faire está por fora, o importante é mostrar a atuação governamental. O fato é que a globalização não acabou com os nacionalismos, deixou-os mais complexos. A diferença é que globalização e geopolítica agora coexistem, e vieram para ficar.
“A globalização é feita para e por ricos”: países emergentes como Brasil, Vietnam, India e China provam o contrário, haja vista o efeito de investimentos facilitados pela globalização. Acredita-se que esta tirou muita gente da linha de pobreza, enriqueceu as classes médias. As evidências estão aí.
“A globalização faz do mundo mais seguro”: não é verdade. O número de conflitos diminuiu significativamente, mas as formas de conflito e violência mudaram. Terrorismo, narcotráfico, doenças, proliferação nuclear. De alguma forma o mundo é está mais longe da aniquilação do que quando as superpotências se armavam e guerreavam, mas hoje há um medo iminente, desconhecido, que provoca uma esfera de insegurança o tempo todo.
“A crise financeira é um sintoma do comportamento selvagem da globalização”: Sem dúvida a globalização multiplicou os problemas que não podem ser resolvidos unilateralmente. A necessidade de colaborar é tão óbvia quanto a dificuldade de se chegar a uma solução. As instituições internacionais não conseguirão resolver os problemas por si só. O maior desafio é, portanto, diminuir a lacuna entre os progressos da comunidade internacional e a habilidade individual colaborativa de cada Estado frente aos problemas.
3 comentários:
Lendo o texto, vê-se que o autor tenta atualizar um dos conceitos mais abstratos, maleáveis e problemáticos já absorvidos pela academia do universo do senso comum. Além de não conseguir descrever de forma objetiva QUAIS processos de integração têm ocorrido entre QUAIS atores e em que ritmos, ao ser usado sem critérios, por todo mundo para se descrever qualquer tendência mundial, mesmo que contraditórias, o conceito de globalização acaba sendo um desses convites ao comodismo e ao intervencionismo dos mais fortes.
Afinal, a possível atual contaminação provocada pela crise econômica grega terá sido parte da chamada "globalização econômica", então é aceitável; afinal, a entrada do estilo de vida estadunidense, suas empresas e produtos na China é parte mesmo da "globalização cultural", então está tudo bem; afinal, como a "democratização" do mundo pode também ser chamada de "globalização" da democracia, a invasão do Irã, China e Coreia do Norte ficam desde já autorizadas.
Viva a globalização que pretende ser sempre a mesma, num mesmo termo, para todo o Mundo, mas que é útil aos filhos do tio Sam.
Ahn? Mas o objetivo dele não é falar quais processos ou quais atores, mas sim renovar as idéias dos tidos "senso-comum" sobre a globalização.
O segundo paragrafo contradiz o primeiro.
E por fim, acho que é ela é útil para todos os outros, e foi isso que ele tentou mostrar ;)
Há vacas sagradas para pessoas que se acham "esquerdistas" uma delas é atacar a globalização, muita vezes sem expor argumentos fortes.
De um ponto de vista prático o chinês que agora pode consumir, comer, se vestir como quiser, experimentando a racionalidade do mercado, que os planejadores centrais nunca conseguiram, tem uma vida bem melhor. Provavelmente mais longa, infelizmente nada livre. Mas ai já é outra conversa. Outra coisa que adoram esses debatedores que falei no começo é o termo "estadunidense" uma palavra como outra qualquer que ganha um signo distinto, quase uma palavra em novilíngua.
Mas acabei por sair do assunto e por isso peço perdão.
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