- O poder é distribuído e não concentrado
A característica principal da ordem mundial é a de não-polaridade. Isso significa um mundo não mais dominado por um ou dois Estados, mas por uma série de atores exercendo diferentes tipos de poder. Acredita-se que hoje o poder seja difuso.
Haass diferencia o mundo outrora multipolar como sendo uma ordem que envolve vários pólos ou concentrações de poder, da ordem não-polar, caracterizada por diferentes centros de poder significativos. Haass diz que no mundo multipolar não há um poder hegemônico, pois se assim fosse a ordem seria unipolar, e que também esta ordem não gira em torno de dois eixos principais, o que geraria uma ordem bipolar. A diferença do mundo multipolar para não-polar, então, segundo o autor, é de que hoje existem muito mais centros de poder e que muitos destes são poderes não-estatais. Ele sugere que os Estados estão perdendo o monopólio do poder, e que organizações internacionais, ONGs, milícias e outros grupos estão crescendo. O poder está agora em várias mãos e em vários lugares.
O autor admite, no entanto, que os EUA ainda são e por um bom tempo permanecerão como uma grande concentração de poder, mas tenta argumentar como este poder está em queda frente à ascensão de outras fontes de poder. (ex: Londres como novo centro financeiro, queda nas trocas comerciais em dólares e valorização do euro)
Segundo Haass, poder e influência estão cada vez menos interligados na era da não-polaridade. Seu argumento é de que potências regionais muitas vezes exercem mais pressão e resultados sobre outros Estados, numa tentativa de confirmar seu argumento sobre o declínio do poder norte-americano. Até em termos de cultura e informação, Haass acredita que há alternativas ao domínio da produção dos Estados Unidos.
Outro argumento é o de que a integração mundial alcançada amortece a competição do surgimento de novas grandes potências. Mas mesmo sem tais rivais, a unipolaridade acabou. Não há um hegemon, por três diferentes razões assim resumidas:
- Estados se desenvolvem! Empresas e ONGs também, e têm cada dia mais poder
- EUA demandam forças alternativas e enfraqueceram sua própria posição frente aos emergentes
- a política econômica dos EUA, com os custos das guerras do Iraque e Afeganistão, gerou déficit, pressão sobre o dólar e inflação, contribuindo para geração de riquezas em outros centros de poder que não os EUA.
O mundo não-polar é portanto, conseqüência da ascensão de novos agentes de poder, de erros na condução da política norte-americana e da própria globalização. A globalização dilui a influência dos grandes governos e reforça o poder das instituições. Aparentemente, ser o Estado mais forte não significa mais ter o monopólio da força/poder.
As conseqüências dessa nova ordem mundial, segundo Haass, trazem alguns pontos negativos (principalmente para os EUA) para o mundo. Sua tese é de que muitos atores internacionais comprometem a tomada de decisões, tornam mais difícil a obtenção de respostas conjuntas e de fazer as instituições funcionarem. Controlar muitos é mais difícil do que controlar uns poucos. O desconsenso de Doha é um exemplo argumentativo desta defesa.
As conseqüências dessa nova ordem mundial, segundo Haass, trazem alguns pontos negativos (principalmente para os EUA) para o mundo. Sua tese é de que muitos atores internacionais comprometem a tomada de decisões, tornam mais difícil a obtenção de respostas conjuntas e de fazer as instituições funcionarem. Controlar muitos é mais difícil do que controlar uns poucos. O desconsenso de Doha é um exemplo argumentativo desta defesa.
A não-polaridade também aumenta a vulnerabilidade e ameaças globais, direcionadas especialmente aos Estados Unidos. O caso do Irã é um exemplo de não-polaridade: os EUA não podem e não conseguem lidar com este problema sozinhos.
Haas retoma os conceitos de Bull sobre anarquia e sociedade: na ordem não-polar um acordo para modelar o mundo seria essencial para prevenir uma ordem cada vez mais desorganizada ao longo do tempo. Mesmo que o mundo unipolar seja uma coisa do passado, ele defende que os EUA podem e deveriam colocar “a casa em ordem”, pois ainda é o único com tal capacidade para ajustar o sistema internacional. O ponto chave é fazer a sociedade mais resiliente. Não há como inserir todos, como agradar a todos, mas há como criar alternativas.
A idéia é combater a produção de bombas nucleares e produzir energia, estabelecer um combate rígido do terrorismo, utilizar-se do comércio como fonte de integração e estimular investimentos. O multilateralismo, então, é essencial para se lidar com o mundo não-polar. Como buscar o consenso de muitos torna-se mais difícil, a opção é a de se buscar acordos menores entre as partes, até chegar em uma resolução maior e comum. É o que ele chama de “multilateralismo à la carte”.
Ademais, Haass acredita que a não-polaridade também complica a diplomacia. Não há mais estruturas fixas e relações tradicionais entre Estados. Fica cada vez mais difícil classificar Estados como aliados ou adversários. Em alguns casos há de se cooperar, em outros, resistir.
A não-polaridade é mais difícil e perigosa. Encorajar um nível maior de integração global é uma solução. Haass sugere a criação de um grupo chave de atores, uma chamada “não-polaridade concentrada”. Segundo ele, isto não elimina a ordem não-polar e ao mesmo tempo consegue administrar o sistema internacional para que não se deteriore e nem se desintegre.
- O texto de Haass está recheado de contradições e argumentos fracos em relação à definição e diferença entre a ordem multipolar e não-polar. Ele varia muito nas posições sobre os EUA (ora admite que é o mais poderoso, mas também defende que seu poder está diminuindo) e por fim, sua sugestão final de uma “não-polaridade” concentrada, de alguma forma deixa de ser o que a não-polaridade definida por ele mesmo deveria ser. Parece que ele advoga uma nova ordem, confusa, paradoxal, que nem ele mesmo sabe definir.
- Texto original do Haass integralmente em PDF disponível AQUI
3 comentários:
O que vivemos hoje parece um processo de que chamaria de "privatização" de problemas nacionais e isso se mimetiza com a não polarização porque os diversos Estados Nacionais não pode tomar medidas mais enérgicas, que interfiririam na soberania, como no caso por exemplo do Iraque, onde o ideal seria que os diversos países da região se mobilizassem.
Isso me leva a outro questionamento a de que valores ocidentais, como da democracia, sufrágio universal ainda não refletem uma uniformidade do pensamento e ações internacionais, aumentando os desencontros.
Acredito que a não polarização reflete mais um momento de incertezas do que de pluralização do poder e que por isso países como os Estado Unidos, da União Européia serem referências contraditórias.
Os países do oriente e da América Latina e África ainda nos são incógnitos nos diversos campos de interesses, enquanto que nos países desenvolvidos e com laços históricos marcantes os mesmo refletem grande participação.
Haas está apenas parcialmente correto, e as criticas da Monique sao absolutamente pertinentes.
Meus cumprimentos,
Paulo Roberto de Almeida
Shanghai, China
Parabéns pela ideia do post e mais ainda pela análise, Monique.
De fato, embora em parte contraditório e carente de maior maturação, mesmo sem querer o argumento de Haass é exemplo claro da complicação que surge ao se tentar descrever as RI em sua dimensão sistêmica a partir de um ponto de vista único e supostamente neutro. Seria a "ordem" mundial unipolar, multipolar ou apolar? ora, é unipolar para alguns dentro do governo estadunidense, multipolar para outros dentro do brasileiro e "apolar" para alguns que não trabalham em governo algum. Mas no fim todos podem com segurança reconhecer que as RI se encaixam em todas as categorias ao mesmo tempo. Ou seja, Haass apresenta outro discurso "aceitável" (compreensível) sobre as RI e que ressalta o que parecia olvidado nas discussões: essa incerteza, esse pluralismo assimétrico de poderes de tipos diferentes.
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