terça-feira, 27 de abril de 2010

What the hell?

Relações Internacionais como área do conhecimento e sua consolidação nas instituições de ensino e pesquisa
Eiiti SATO – original aqui

Neste artigo, Sato aparece para elucidar o nada simples campo das Relações Internacionais. No campo de trabalho, na academia, nas relações políticas, afinal, o que faz, como atua o profissional de Relações Internacionais e como se produz conhecimento nesta área tão recentemente desbravada?

Sato acredita que o crescente interesse pelas Relações Internacionais tenha surgido da era da globalização. O estudo e a profissionalização na área decorrem então, não por uma finalidade específica, mas porque este campo está ligado a diversas preocupações que afetam as sociedades em nossos dias.  Ou seja, há uma demanda social por este tipo de estudo; como que uma obrigação moral de revelar aquilo que nos atinge diariamente.

                Sato faz um apanhado histórico do nascimento pelo interesse na disciplina, contrapondo Dante X Hobbes, Hume, passando pelo positivismo de Comte, citando Carr, voltando para o conceito de soberania de Bodin. Ele explica como eram as relações entre Estado e a influência da Igreja – esta como elemento fundamental na organização das relações sociais e políticas, numa autoridade que implicava a manutenção da estabilidade da ordem vigente. Ao longo do tempo, essas relações foram ficando mais delicadas, principalmente com a expansão das idéias reformistas. Os jogos de poder entre os reinos ficavam mais acirrados.

                O marco para a consolidação do sistema de Estados nacionais foi a Paz de Westphalia ao final da Guerra dos Trinta Anos. Este novo conceito trazia uma estrutura mais adequada à Europa devastada por conflitos políticos e religiosos. Posteriormente surgirá um conflito paradoxal entre a importância de instituições internacionais – como a ONU, por exemplo – com objetivos universais em contrapeso à soberania dos Estados nacionais. Esta é uma questão que pode ser debatida exaustivamente até hoje.

                Sato mostra a evolução do debate teórico das correntes liberal e marxista e como aquela exerceu seu domínio sobre esta última, com argumentos da geração de riqueza e do desenvolvimento do livre comércio. Acredita-se que o comércio seria o instrumento capaz de aproximar os países, e que a política seria fonte de conflitos.

                Angell, em “A grande ilusão”, defende a idéia de que a guerra nunca é benéfica, nem mesmo para a nação vencedora. Na era dos conflitos mundiais, o campo de investigação de Relações Internacionais ganha força: a idéia era a de que a sociedade deveria promover o estudo e reflexão, tanto quanto possível, em bases científicas, sobre as relações internacionais. Com isso, acreditava-se que seria possível tornar o estudo da política algo mais previsível, e assim, conter as guerras e infortúnios. Nos países chamados de terceiro mundo também havia este interesse, mas o foco era voltado para a temática do desenvolvimento.

                O estudo das RI tornou-se importante na era da globalização para tratar não apenas dos assuntos políticos e econômicos, ou de poder, mas porque novas questões foram trazidas às agendas internacionais: temáticas de meio ambiente, comunicação, direitos humanos, empregabilidade, migrações, desigualdades. Sato dá uma grande ênfase no ponto da desigualdade advinda dos processos frutos da globalização.

                Segundo o autor, o estudo das relações internacionais vive no momento marcado pela globalização. No Brasil, especificamente, o interesse neste campo de estudos surgiu a partir da década de 90, o que explica o aparecimento tardio da disciplina como área do conhecimento no país. Sato procura desmistificar um importante fato: o de que no Brasil há uma cultura – equivocada – de que cursos universitários correspondam a profissões. Isso explica o espanto e desconhecimento em relação a área: afinal, o que faz alguém que se forma em RI?

                Para Sato, o mais importante não é considerar o estudo necessariamente igual a uma profissão. O interessante é que nesta área há várias opções.  E a questão chave para sua consolidação é a provada relevância do assunto. Do contrário, a disciplina não estaria tão em voga como nunca esteve. A procura por um curso de Relações Internacionais, então, não se justifica pela opção de uma profissão correspondente, mas pelo fator inquietante de que as realidades internacionais afetam e influenciam a vida de diferentes maneiras. O ser humano vai em busca de resolver esses dilemas.

7 comentários:

Anônimo disse...

gostei do "summary", bem melhor que esses textos imensos(...) se quiser nos agraciar com essas facilidades mais vezes, fique a vontade colega monique!
enfim, concordo com a idéia de desmistificação das profissÕes...é uma pena que tanta gente sem nenhum compromisso com o conhecimento esteja ganhando muita grana com especulações e oportunidades diversas. Quisera eu que a meritocracia baseada no conhecimento fosse mais efetiva. Se a história atual mostra que profissÕes não garantem nada, aqueles que se consideram acadêmicos irão cada vez mais interdisciplinarizar-se para se colocarem de forma abrangente no mercado, sem ,contudo, deixar de ser técnico ou especialista, quer dizer, nesse sentido que o profissionla de relaçÕes internacionais se coloca muito bem em um mundo globalizado.

Igorfv disse...

O argumento apresentado pelo professor Sato nesse texto é relevante e coerente. No entanto, infelizmente vejo como tendência muito mais provável (ainda mais num país como o nosso) os cursos de RI se adaptarem a um formato "preparatório" às profissões exercidas pelos internacionalistas do que algo na direção sugerida pelo texto (autonomia curricular do curso e seu desvínculo com as demandas de mercado). Como todo mundo sabe, a força da iniciativa privada na estruturação dos cursos de RI é grande demais para ser desconsiderada e porque o desinteresse de todos (governo, faculdades e sociedade) na formação de bons analistas de RI ainda é alarmante. Infelizmente nosso potencial ainda não foi descoberto.

C. Lisdália disse...

Oh, não li seus ultimos dois posts... Estão me rememorando ao semestre passado isso causa inicio de depressao pós-formada. Mas estou criando folego para tal!

Vamos pro Shlob d novo? Fazer uma reuniao com uns vovôs? Que vc acha?! aiuaiuhaiuua Chama o argentino... eiuhieuheuhuie

rafafontes disse...

blog nerd! depois leio com mais calma =P

Mário Machado disse...

Vou ter que discordar do colega Igorfv, não creio que sejam coisas excludentes uma formação intelectual sólida em relações internacionais e mercado de trabalho. E, também, não vejo como um "dever" do mercado descobrir nosso potencial, penso mais que nós é que temos que saber o que fazer pelo mercado e não esperar que o mercado nos descubra.

E é do interesse sim de vários setores da sociedade ter bons analistas, mas eles formam a si mesmos.

Agora sobre o blog, parabéns e mantenha o folêgo, que é um exercício muito divertido ainda que dê muito trabalho.

se quiser retribuir a visita fique a vontade, mas, por favor, não se sinto obrigada.

Abraços,

Igorfv disse...

Mário, acho que temos o mesmo entendimento sobre o assunto.

Também penso que formação sólida e prática profissional não são excludentes e, com isso, critico EM PARTE o argumento do texto de que o curso subsistiria mesmo sem contato com o mundo profissional. Na verdade, acho que nosso curso dialoga o tempo inteiro com demandas de mercado (a exemplo de professores que lecionam como segunda profissão, etc) e que, a partir disso, se modifica.

Minha preocupação é como essa mudança tem se processado: ao gerar profissionais que não têm "lugar certo" no mercado (mas vários lugares certos), o curso (sobretudo em universidades privadas, e elas são maioria) continuará num futuro próximo (suponho) tendo sua base curricular majoritariamente composta por conhecimentos "externos". Um problema aqui é esse caráter majoritário e não a presença em si destas.

Uma maneira de observar isso, a meu ver, envolve se perguntar: quantas matérias realmente "core" de RI tivemos na graduação em proporção às demais? continuam sendo muito poucas...agora no mesmo raciocínio, quantos profissionais temos hoje trabalhando exclusivamente em nossa área, fora os colegas da diplomacia e academia? Muito provavelmente uma minoria.

Por conta desse cenário ainda desfavorável, é que vejo que não fomos descobertos – sem nenhuma conotação passiva da nossa parte. Convenhamos todos que é MUITO frustrante não ver internacionalistas em debates televisivos (Globonews, por exemplo) sobre política externa, questão nuclear, atuação internacional de Obama, etc, e ver jornalistas, cientistas políticas e economistas ocuparem nosso lugar – embora muito qualificados.

Mas claro, a solução já se desenrola até pela própria difusão do curso, alimentada em parte por nossa projeção externa que cresce - à revelia das boas controvérsias.

Unknown disse...

nossa! uma amiga minha tava num dilema em RELacao a isso hj! ela tinha que preencher uma ficha, e simplesmente nao sabia o que botar no campo profissao! ela tava desorientada...hehehe
ate hj eu me lembro do dia em q o Prof. Sato me disse, no quarto semestre, quando fui fazer meu primeiro estagio, que os alunos se decepcionam por nao entenderem q relacoes internacionais é um campo de estudos e nao uma profissao! foi um certo baque...

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